Sobre o Processo Nowhere


Relato do processo por Flávia Couto:

O projeto Nowhere, surgiu a priori como o projeto “Cidades” em um momento de transição pessoal. Eu estava muito insatisfeita com as condições de trabalho de uma atriz e com a qualidade de vida e organização geral da cidade de São Paulo, Brasil. Esta insatisfação gerou minha decisão de mudança para Paris.
Foi este momento de grande desilusão com o sistema da cidade em que eu morava que me causou uma enorme sensação de “despertencimento”, e desabrochou a concepção/argumento de “Nowhere”.

A principio a ideia partia das relações de pessoas que trabalhavam com arte nas cidades em que viviam como estrangeiros legais ou ilegais ou pessoas que estivessem somente de passagem. Havia proposto para alguns amigos a colaboração no filme, como é o caso de Thais Almeida Prado, mas nesse primeiro momento de roteirização, acabei assumindo sozinha a organização do Projeto.

Após 9 meses na cidade de Paris e tendo conhecido por meio de uma companhia de teatro físico uma série de colegas, alguns franceses e muitos que vieram de outros países e estavam inclusive ilegais na cidade,  decidi fazer o convite ao filme, pensando que após o termino do trabalho com a Cia. em dezembro de 2011, muitos voltariam a seus países.

Enviei um argumento e uma série de “provocações” criativas para que assim os colaboradores movessem a criação de seus respectivos “filmes-depoimento”: suas relações com a cidade que habitavam.
Essas relações em alguns casos, passavam do encantamento, a um cotidiano insípido e ao desgaste.

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Os temas enviados para cada participante foram:

Rotina (dia a dia):  Revelar pequenos espaços do cotidiano. Como por exemplo: os percursos, mais utilizados, o meio de transporte, a casa, o lugar onde se come, os horários. Como se organiza o dia a dia e quais os esquemas que sempre se repetem.

Rituais:  Os pequenos momentos de fuga do cotidiano, que não se repetem, mas que acontecem em alguns momentos especiais quando criamos realmente uma relação de subjetividade dentro da cidade em que o espaço pessoal se revela. Nesses momentos podemos revelar o “eu” dissociado de contextos e como ele se relaciona com o ambiente onde habita e quais lugares da cidade potencializam nossos rituais particulares.

Pertencimento: Os espaços que se criam na cidade a partir da nossa interferência e que nos geram a sensação de pertencimento. Os lugares, pessoas, relações onde construímos nossa identidade, lugares onde nos sentimos parte integrante. E também revelar a relação contrária: o não pertencimento, onde nos sentimos expulsos da cidade, os lugares que nos repelem, as relações, organizações e contextos que nos distanciam e nos fazem sentir um ser a parte e dissociado do ambiente.

Olhar da cidade: Os espaços e sonoridades da cidade que são revelados a partir do nosso olhar,  os planos subjetivos de pequenos detalhes que nos interessam mostrar da nossa cidade. As coisas que nos chamam atenção.

Arquitetura/urbanismo:  A maneira como a cidade se organiza em sua estrutura urbana e como os edifícios, suas regularidades ou irregularidades influenciam no comportamento dos indivíduos que a habitam.

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A partir dos temas dados foram se desenvolvendo fragmentos que foram construídos em cada respectiva cidade:

Argélia. Aurèlie Rauzier e Clémence Zamora – Um convite (material bruto)
Aurèlie convida sua amiga Clémence para uma viagem rumo a Argélia, local donde seus ancestrais vieram. Em meio ao Ramada, cobertas com os véus tradicionais, numa sociedade onde o homem domina e a mulher busca o seu espaço, as duas amigas redescobrem sua sexualidade e uma nova relação surge entre elas.

Berlim e Köln. Bianca Zanchetta - Expressões/ Impressões (material bruto)
Uma jovem estrangeira chega em Berlim a fim de realizar o seu sonho de tornar-se bailarina. Focado no universo interno da personagem, o fragmento trata da relação sensorial e pessoal dela com esse novo universo ao seu redor. A incomunicabilidade e a dificuldade de expressão em uma língua desconhecida são os temas principais que fazem do filme uma viagem sensorial à perspectiva do mundo interno de uma jovem que tem no corpo a principal forma de expressar-se.

Hong-Kong. Man Wai Fok  - Procurando o céu (material já editado)
Hong-Kong, uma grande cidade do mundo moderno com milhares e milhares de arranha-céus. Abaixo dos prédios gigantescos as ruas são estreitas e comprimidas e as pessoas condensadas são como formigas. E  onde se vê o céu? Quantas vezes olhamos para o céu? Através de fragmentos de imagem Man Wai revela vistas de grandes arranha céus e a manifestação de pessoas nas ruas, intercaladas com as frestas do esquecido  céu de Hong-Kong, em meio a seus imensos edifícios.

Londres. Camila Ganc - A liberdade em uma sociedade de controle (material bruto)
Este fragmento exprime a possibilidade da rotina de um indivíduo estrangeiro em Londres, a solidão, a oscilação do ritmo da cidade durante o dia e as bruscas mudanças climáticas, além de explorar através de uma linguagem corporal, a busca da liberdade de expressão do corpo em  lugares públicos.

Paris. Flavia Couto – Impermanências (material bruto)
O fragmento conta através da passagem das estações do ano a permanência de um ano de Flavia, uma brasileira em Paris. São revelados fragmentos de uma busca de um reencontro com si mesma, em uma cidade extremamente impermanente e contrastante pelo grande afluxo de turistas e imigrantes. Os parques de Paris no primeiro sol do verão, os metros abarrotados no inverno, os bairros dos imigrantes, o verão cheio de turistas,  a solidão e vazio das relações das pessoas na cidade luz.

São Paulo. Thaís Almeida Prado - Origem/Destino (material bruto)
O fragmento aborda a cidade de São Paulo a partir da criação do espetáculo da Cia. Auto-Retrato “origem/destino”, um projeto de intervenção teatral que se desloca pelas ruas da cidade de São Paulo. A criação do espetáculo traz a tona à Cia. a dificuldade de se deslocar e de coabitar as ruas de uma cidade que se perdeu em seu planejamento urbano e que tem sido alvo de diversas proibições, inclusive artísticas. A trajetória da peça vai da Sé à Santo Amaro, e durante o percurso de criação os artistas escolhem os melhores trajetos que permitam deslocar o olhar de um transeunte comum. Entre crises de processo entre a própria Cia. ou a crise com a cidade os artistas se deparam com memórias pessoais relacionadas a lugares e a história rapidamente esquecida de uma São Paulo em constante transformação.

Washington. Emma Jaster – Impulsos (material já editado)
O impulso criativo de Emma a leva pelo distrito de Columbia. Sua bicicleta a impulsiona no movimento da cidade e ela descobre inspiração infinita. o fragmento explora os espaços criativos que encontramos em nossas cidades e em nós mesmos."

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Após desse primeiro momento realizado por mim, de condução dramatúrgica, do elo entre essas histórias que foram elaboradas e de ocorrerem as filmagens individuais, é que começou uma nova atividade: a de direção.

Foram realizados vários encontros entre eu e Thaís durante 2 meses (entre janeiro e fevereiro de 2013) de completa imersão na montagem da primeira versão do filme. Assumimos esta direção começando a montagem sobre a perspectiva de unir essas histórias, sem uma montagem em “blocos” e sim que as interligassem, como se todas essas mulheres espalhadas por essas cidades fossem uma só.  Com esse olhar, houve um momento em que o tema se inverteu. O foco não era a cidade e a relação com ela, mas “nenhum lugar”.
Todas estávamos em um momento de passagem, de busca, de encontros, o lugar era apenas uma extensão desses corpos. Cada indivíduo assumiu um papel maior no filme, era cada uma em seu vazio, em seu lugar nenhum, a cidade era uma continuidade desse corpo, do corpo no espaço.
Nesse momento, de edição imersiva, foram inclusive gravadas novas cenas, para o “filme-depoimento” de Thaís; foram resgatados materiais de Berlim que Thaís havia filmado com Bianca Zanchetta em 2010 (fragmentos estes que estavam engavetados para um trabalho de videodança das duas artistas) e outros processos criativos que eu, Thaís e Bianca vivemos juntas em nosso coletivo de pesquisa Cia. ÔCA.
 A medida que o filme foi tomando corpo, fomos resgatando materiais guardados e criando novas cenas, a partir do nosso olhar de direção.
Neste momento, onde vários aspectos surgidos com essa primeira versão amadureceram é que continuaremos com nossa versão final.

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